O assasinato da garota Isabella Nardoni, em São Paulo, tem suscitado enorme atenção da opinião pública e, consequentemente, vem merecendo cobertura intensiva por parte da imprensa nacional. Confesso que estou chocado com a crueldade do crime, acreditando que compartilho essa emoção com boa parte dos brasileiros. Tal tipo de violência tende a suscitar uma indignação de tal magnitude que acaba por revelar dimensões da consciência coletiva da sociedade. A despeito das mazelas morais e da anomia que caracteriza amplos segmentos da vida coletiva brasileira, não deixamos de nos indignar com um ato de barbárie cometido contra uma criança de cinco anos de idade. Nem tudo está perdido, meus amigos !
Alguns aspectos do caso merecem reflexão mais acurada. Em primeiro lugar, explicita-se mais uma vez o problema da violência cometida contra crianças no Brasil. Não temos uma noção precisa da magnitude do fenômeno, pois ele está imerso nas entranhas da violência doméstica. E essa, muitas vezes, não chega ao conhecimento da polícia, permanecendo oculta. A violência contra crianças não tem raça nem classe social específicas, conforme revela o caso Isabella. Entre 1996 e 2005, o assassinato de crianças de 0 a 9 anos de idade não cresceu, mantendo relativa estabilidade, representando menos de 1 % do total anual de assassinatos registrados no país. Em termos absolutos, estamos falando de aproximadamente 300 homicídios ao ano nessa faixa etária. Não é pouco, devemos reconhecer. A violência que caracteriza a sociedade brasileira não tem poupado as crianças, infelizmente.
Outro aspecto a merecer nossa reflexão diz respeito às suspeitas de autoria do crime que estão recaindo sobre o pai e madrasta da garota. Apesar do apelo moral dos advogados de defesa, no estilo ‘não julgueis para não serdes julgado’, não há como negar que as evidências obtidas pela polícia paulista até o momento, que aliás tem realizado excelente trabalho de investigação, sustentam a convicção pública de que o casal é culpado do crime. É certo que há uma overdose na cobertura da imprensa, culminando em alguns momentos em explícito sensacionalismo. Mas entendo que o espaço dado ao tema na mídia reflete apenas o interesse dos brasileiros. E a mídia não forjou tal interesse, dado que ele decorre do sentimento de indignação que tomou conta do Brasil.
Homicídios como o a menina Isabella reforçam minha triste convicção de que a violência está inscrita na natureza humana. Nossa espécie é capaz de atos de barbárie que surpreendem pelos requintes de crueldade e pela completa ausência de empatia pelo outro. A construção de uma sociabilidade civilizada exige, nesse sentido, a repressão e a domesticação contínuas de tais instintos anti-sociais.
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O programa Fantástico, deste domingo, exibiu entrevista exclusiva com o casal indiciado pelo crime bárbaro. Acredito que muitos leitores do blog tenham assistido a reportagem. Pergunto : foram convencidos da inocência do casal ? Da minha parte, devo dizer que não.
14/04/2008
PROCESSO INCIVILIZADOR
O jornal O Estado de Minas, no domingo, 13 de abril, publicou boa reportagem sobre uma série de homicídios ocorridos nos últimos dias motivados por questões fúteis e banais, tais como, ciumes de namorados, brigas de trânsito e brigas em festas. A pergunta sugerida pela reportagem é : o que está provocando tal banalização da vida ?
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A resposta para essa indagação não é simples. É fato que motivos fúteis e banais não têm sido a principal causa dos homicídios nos principais centros urbanos brasileiros. Os conflitos derivados do tráfico de drogas persistem como o grande ‘vilão da história’. Contudo, há um processo social comum permeando os homicídios perpetrados nos conflitos do tráfico de drogas como também os homicídios resultantes de conflitos banais : a valorização da violência como recurso legítimo para a solução de conflitos interpessoais.
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Em termos sociológicos, é possível afirmar que a banalização da vida tende a se manifestar em contextos sociais e históricos marcados pela incapacidade do Estado em garantir o monopólio da violência. Os indivíduos acabam por não internalizar devidamente mecanismos de auto-controle de seus impulsos agressivos. Conforme nos ensinou o proeminente sociólogo alemão Norbert Elias, o PROCESSO CIVILIZADOR que caracterizou o mundo moderno só foi possível graças à combinação de maior capacidade de ação coercitiva do Estado na contenção da violência com disseminação de valores que propugnavam a solução pacífica de conflitos. Quando tais pressupostos não estão presentes, a violência tende a se disseminar no cotidiano.
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A banalização da violência que tem caracterizado a sociedade brasileira em sua história recente deve ser compreendida nesses termos. Os instintos agressivos e anti-sociais que estão inscritos na natureza do ser humano tendem a se manifestar mais livremente em contextos sociais marcados por alto grau de impunidade. Nos últimos vinte anos, a sociedade brasileira está experimentando um processo INCIVILIZADOR, com o perdão do neologismo. E, paradoxalmente, isso tem ocorrido paralelamente à institucionalização da Democracia. Eis um tema a merecer reflexão mais acurada.
Para Ana Lúcia Figueiredo estudande de joranalismo e militante dos direitos humanos é preciso esperar a conclusão para o julgamento. No entanto ao expor demais a notícia a sociedade acaba tomando partido condenando antecipadamente. Por outro lado peritos na área da psicologia deverão chegar a uma conclusão. A reportagem realizadas por todos os jornalistas deverá ser pautada pelo cuidado para não cometer erros. Todos esperamos a solução e o fato leva a uma suposta idéia de que o casal possa ter cometido o crime. Jornalistas investigativos precisam entrar em ação. A imprensa precisa divulgar com base muito concretas buscando um aprofundamento mais detalhado.