Ei, Joana
Tudo em paz?
Seguem os dois leads das entrevistas que fiz no grupo de TIDIR.
Nosso trabalho é sobre Santa Teresa.
Não sabia se enviava as entrevistas. Na dúvida…
Haja estômago, hein?!
Forte abraço,
Cíntia
Lead Entrevista Luís Góes
“Minha roça sempre foi Santa Teresa”
Quem busca informações sobre Santa Teresa, bairro tradicional de Belo Horizonte, sempre recorre a ele. Jornalista formado na primeira turma da Uni, em 1965, Luis Góes uniu à profissão, o amor que nutre há mais de 60 anos pela vila mais famosa da cidade e tornou-se uma sumidade quando o assunto é Santê.
Entre uma e outra história, ele não esconde sua paixão pelo lugar.
Entrevista Luís Góes por Cíntia Melo
Cíntia: Como foi que começou o seu caso de amor com Santa Teresa?
Luís: Eu nasci em Conceição do Mato Dentro. Vim para Belo Horizonte com dois anos de idade. Não conheço roça, interior. Minha roça sempre foi Santa Teresa. Eu estou com 63 anos e moro aqui há sessenta e um.
Cíntia: De lá para cá, o que mudou no bairro?
Luís: O mundo mudou. As pessoas acham que Santa Teresa não está dentro de Belo Horizonte. Mas tudo o que acontece em Belo Horizonte acontece aqui. A criminalidade, que antes era zero, hoje não é mais. Assalto e assassinato também fazem parte de Santa Teresa. A vida mudou. Santa Teresa também. O principal problema do cidadão atualmente é a violência.
Cíntia: Esse purismo das pessoas em relação a Santa Teresa se deve a quê?
Luís: O itinerário da nossa linha de ônibus é daqui para centro e do centro para cá. Santa Teresa não é passagem para outros bairros. Para se deslocar em BH, você não passa dentro de Santa Teresa, mas fora. O bairro ainda tem muita casa da década de vinte, trinta, da arquitetura dessa época.
Existem muitas famílias que moram aqui há mais de oitenta anos com os netos, as novas gerações.
Isso tudo ajudou a preservar a tradição do bairro. Isso explica esse estigma em relação ao bairro.
Cíntia: Esse sentimento de amor e cuidado com o bairro, permanece nas gerações que estão chegando?
Luís: Sempre. Os jovens que vivem aqui convivem muito bem com o bairro e valorizam a sua história e tradição.
Cíntia: Que medidas práticas foram tomadas ao longo dos anos para a preservação dessa tradição?
Luís: Nós temos aqui no bairro, uma lei que impede a derrubada das casas antigas. É uma ADE, Área de Defesa Especial que impede também a construção de prédios acima de três pavimentos. Está dentro da Lei de Uso e Ocupação do Solo. Não temos agências bancárias, por exemplo. Aqui não pode ser instalada nenhuma indústria, por exemplo. Nada que perturbe a vida do cidadão do bairro.
Cíntia: Isso foi uma grande conquista, então?
Luís: Foi uma conquista nossa, do movimento Salve Santa Teresa. Tudo para preservar a história de Santa Teresa. Se não tivéssemos alcançado essa ADE, a expansão imobiliária teria mudado a cara do bairro. É uma ilha mesmo. Um dos poucos lugares da cidade em que você pode estacionar seu carro na rua. O número de casas é muito maior que o de prédios. Temos espaço.
Cíntia: O senhor acredita que vai continuar assim?
Luís: Enquanto eu estiver vivo, vou lutar por isso. Tem um grupo atento de pessoas em Santa Teresa que também vai defender, enquanto puder, a tradição do bairro. E eu acredito que os jovens daqui irão nos substituir bem.
Cíntia: A presença dos militares em Santa Teresa colaborou para a manutenção das suas características?
Luís: Acredito que sim. Eles estão aqui desde 1916 e defendem as tradições do bairro, além de trabalhar pela segurança dos moradores. O interessante é que embora estejam aqui, a maior parte do tempo estão fora do bairro, resolvendo conflitos em outras comunidades que precisam mais deles.
Cíntia: A polícia é bem aceita aqui? A relação com os moradores é saudável?
Luís: Hoje sim. Já quiseram tirá-la daqui quando era representava a chamada polícia de guerra, repressora, mas o tempo passou e a polícia evoluiu muito. A conduta é outra e o relacionamento é muito bom.
Cíntia: O que perturba o sossego do bairro hoje?
Luís: Às vezes, as pessoas que vêm de outros bairros, para curtir a noite de Santa Teresa. Gente que chega com o carro equipado com um som estridente e acha que está em casa, usa e abusa.
Cíntia: Mudou muito o lazer, o jeito de curtir o bairro?
Luís: Muito. As pessoas hoje, aqui e no mundo, estão fazendo entretenimento dentro de casa. Nossa Praça Duque de Caxias, por exemplo, não é mais palco, como era antes, de encontro e lazer. As pessoas têm medo da violência. A população cresceu. Nos últimos quinze anos foram construídos cerca de 150 prédios em Santa Teresa. O aumento da população traz problemas também.
Cíntia: Qual é o número de habitantes do bairro?
Luís: O último censo que vi, há dez anos, falava em 15.000 pessoas. Mas esse número, com certeza, aumentou consideravelmente.
Cíntia: Se fosse para citar um problema a ser resolvido no bairro, qual seria?
Luís: Eu não gosto de falar mal de Santa Teresa. Para citar um problema típico do bairro? Não. Santa Teresa não tem.
Cíntia: E um lema, Santa Teresa tem?
Luís: Tem. Santa Teresa, tranqüilidade na cidade.
Cíntia: O bairro tem um hino?
Luís: Tem uma canção feita na década de 1940 pelo Celso Garcia. “ Vou pra Santa Teresa que aquela beleza, o bonde levou…” Lembra?
Cíntia: Claro.
Luís: Mas quando ele foi gravar essa música no Rio, incorporaram, por causa da letra, ao bairro carioca de Santa Teresa. Segundo contam os mais antigos que conviveram com o autor, foi isso o que aconteceu com a nossa canção hino.
Luís afirma que Santa Teresa é o bairro com o maior índice de IDH de BH.
Foi presidente do bairro em 1988.
Lead Entrevista Sanakan Firmino
De volta à tradição
Ele passou a infância em Santa Teresa, bairro famoso da capital mineira.
Adolescente, foi morar na Savassi, mas continuou freqüentando a feirinha da Praça Duque de Caxias, cartão postal do lugar. Hoje, aos 29 anos, o designer gráfico Sanakan Firmino casou e mudou-se de mala e cuia para Santa Teresa. De volta, ele conta porque escolheu Santê para viver e criar os futuros rebentos.
Entrevista Sanakan Firmino por Cíntia Melo
Cíntia: Você morou na Savassi por um bom tempo e escolheu mudar para Santa Teresa. Por quê?
Sanakan: Eu já morei no bairro. Passei minha infância, boa parte dela, em Santa Teresa. Quando saí, não me desvencilhei totalmente. Sempre voltava nos finais de semana para me divertir. Tinha as feirinhas na Praça Duque de Caxias e eu não perdia.
Cíntia: Isso foi há dez anos. E hoje?
Sanakan: Bom, a feirinha acabou, mas continuo a curtir o lazer de Santa Teresa.
Existem muitos bares bacanas, bons restaurantes. Tudo com um pano de fundo cultural.
Cíntia: Como foi sair da Savassi para Santa Teresa?
Sanakan: Parece que estou no interior agora. A segurança é muito melhor. Tem o Batalhão que já proporciona isso e os próprios moradores, porque todos se conhecem. Cria-se então um clima de intimidade, de cuidado. Todos cuidam de todos. Eu fui tão bem recebido pelos moradores que, no início, achava até um pouco invasivo. Na Savassi, o clima era totalmente intimista. Eu nem conhecia meus vizinhos de porta, no prédio em que morava. Os moradores mais antigos de Santa Teresa conversam muito com você e trocam convivência: de receita, até vaga de garagem.
Cíntia: Essa característica de vila vem daí?
Sanakan: Acredito que sim. Santa Teresa é um bairro cercado e isso favorece a manutenção da sua tradição. E os moradores não querem e não permitem que as tradições sejam perdidas. Eles lutam pela manutenção dos valores do bairro.
Cíntia: Para você, qual a característica mais forte de Santa Teresa?
Sanakan: Esse jeito de interior. Por exemplo, eu faço todas as minhas compras lá e compro fiado. Onde é que a gente faz isso em Belo Horizonte, hoje? Em Santa Teresa, ainda existe a confiança, o crédito na pessoa.
E a sua ótima localização é outro ponto forte, te permite um deslocamento rápido e fácil aos outros lugares da cidade. Como Santa Teresa, não há.
Cíntia: Você literalmente casou e mudou para Santa Teresa. Adotou definitivamente o bairro? Pretende criar seus filhos lá?
Sanakan: Santa Teresa é o bairro ideal. Não pretendo sair de lá. E minha esposa concorda comigo. Costumamos dizer que moramos em um condomínio sui generis de Belo Horizonte. Santa Teresa tem bar, o do Orlando, perto da Parada do Cardoso, com mais de sessenta anos, época da estação de trem. É muita história e cultura em um mesmo espaço!
Cíntia: Você passou um pedaço da sua infância em Santa Teresa e pretende criar seus filhos lá. Mesmo com todas as benesses do bairro, vai ser diferente, não?
Sanakan: Infelizmente, mesmo em Santa Teresa, as crianças não brincam mais como eu brincava. Aquelas brincadeiras de rua: queimada, futebol, vôlei, acabaram. Nesse sentido, o bairro também foi afetado.
Cíntia: Tem alguma reclamação do bairro?
Sanakan: A cultura de vizinhança, do “boca a boca”, não funciona mais. O bairro cresceu. Acho que falta informação sobre ele. Sei que existe um jornal local, mas eu não recebo. Leio nos restaurantes que freqüento. Às vezes saio do trabalho e passo pela Praça Duque de Caxias e vejo que alguma apresentação está acontecendo, mas eu nem sabia. Com certeza, com tantas atrações culturais que o bairro oferece, deveria haver mais divulgação.
Cíntia: Um elogio final?
Sanakan: Santa Teresa é tranqüilidade, conforto e tradição. Tudo junto.